Inverno 2020: o inverno do saudosismo, da apatia e do cuidado

 

Acordar às seis horas da manhã, tomar seu café, lembrar-se do gosto do café passado em um sábado à tarde, voltar a realidade: é segunda-feira. Passear com os olhos pelo jornal, não sentir nada, fingir que absorveu cultura em trinta minutos do programa jornalístico que passava na televisão enquanto a mente divagava sobre o café, sobre a esposa, sobre “tempos mais fáceis”. O que está difícil exatamente?

Uma foto para o Instagram, ver stories. Um feed, que, utilizando do próprio inglês para
justificar, te alimenta, de quê? Sede de novidade. Famintos por sermos mais, tão grandes que inflamos. Um universo de nadas, relações rasas, piscinas vazias. Um like é um abraço, um amei é o novo beijo, a comida não sacia mais se não for bem-apresentada, a roupa já não tem a mesma funcionalidade se não sair bem na foto. Montar o look, gel no cabelo. Moda gourmet.

E tudo isso com a constante desculpa da saudade, remorso, faltam os “tempos mais fáceis”,
quais? A doce infância, o terno do vovô, o crochê da vovó. Carinhos nos afazeres que hoje já não temos mais tal destreza para recriá-los. Nos habituamos a deslizar telas e apertar botões.

Sem nenhum manual ou regra, abandonamos o manual, digitalizamos o amor. A saudade é do
contato, do sentir, do cuidar. É da pitada de carinho que acompanhava o café, do fio que entre sorrisos e histórias fez os crochês que ainda estão a adornar a casa de sua avó. Fuxicos. Joias preciosas da memória. O que sobrou do broche de casamento está em meu coração, partido. Guardar a sete chaves, armário antigo, poeira cobre o que ninguém mais ousou voltar a tocar. É o terno do avô que você vestia escondido quando visitava para brincar, do que ainda nem sabia que viriam a ser, os “tempos difíceis”.

Difícil. Escasso. Perdendo a vida. Nosso descaso com o meio reflete no desleixo com nós
mesmos e a resposta para tudo, para salvar a vida, é produzida em frascos laboratoriais de forma a lembrar qualquer relação interpessoal do século XXI: artificial. Contatos físicos substituídos por algorítimos, nós estamos na nuvem virtual, enquanto a Terra grita desesperadamente para voltarmos a pôr os pés no chão.

 

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